
Mais um episódio pra série “Acredite se Quiser” apresentada pelo Jack Palance: acabei de assistir TRAGAM-ME A CABEÇA DE ALFREDO GARCIA pela primeira vez na vida! Esse é um daqueles que eu prorroguei pra ver pois queria fazer isso nas condições certas, com uma cópia boa, legendada, e num momento em que nada pudesse me atrapalhar. Obviamente a espera valeu a pena! Difícil é escrever algo sobre o filme, primeiro porque não há nada de importante que já não tenha sido dito antes, e segundo porque o maior especialista em Sam Peckinpah que eu conheço chama-se Eduardo Aguilar e qualquer coisa que eu diga aqui ele provavelmente achará uma grande bobagem.
TRAGAM-ME A CABEÇA DE ALFREDO GARCIA não é separado em atos, mas é possível imaginá-lo dessa forma. O primeiro e o último são interligados. Os do meio compreendem a viagem de ida (a busca pela cabeça de Alfredo) e a volta (na qual os perigos da missão triplicam). Todas as tragédias ocorridas nesses dois atos centrais podem ser atribuídas a oferta do El Jefe (Emilio Fernandez) no primeiro ato, que em nenhum momento faz idéia dos ocorridos. Claro que ele lava as mãos, mas o cerne da questão é o efeito cascata. Não há como o responsável passar incólume. É inevitável que a merda respingue, o que culmina no quarto, último e maravilhoso ato, num daqueles finais que só o Bloody Sam poderia nos oferecer.
Outros dois pontos que adorei:
- A relação entre Bennie (Warren Oates) e Elita (Isela Vega), que vai do açucarado ao venéreo, passando pelo estupro consentido a la SOB O DOMÍNIO DO MEDO numa participação especial e intrigante do Kris Kristofferson;
- A tentativa frustrada da família de Alfredo Garcia recuperar sua cabeça e o fogo cruzado entre eles, Bennie e os outros dois bandidos casca-grossas de gostos duvidosos (Robert Webber e Gig Young). Essa sequência inteira é um primor.
Resumindo o papo: obra-prima absoluta, sem mais!
Também assisti esses três:

VÍTIMAS DE UMA PAIXÃO (Sea of Love), de Harold Becker
Foi interessante rever esse filme e descobrir que além de muito bom ele é uma espécie de pai do INSTINTO SELVAGEM. Há uma trama central de mistério, não muito complexa porém funcional, e há os subtextos e pequenos detalhes responsáveis pelo verdadeiro charme da obra. O modo como o personagem do Al Pacino lida com seu passado, com seus colegas, o peso da profissão de policial, seu trabalho conjunto com um parceiro (John Goodman) e sua relação tórrida com a principal suspeita de uma série de crimes (Ellen Barkin) rendem momentos saborosos. Bons tempos em que o Pacino enfileirava filmaços como esse, SERPICO e UM DIA DE CÃO, não por acaso todos produzidos por Martin Bregman. Que bela parceria!
(500) DIAS COM ELA ((500) Days of Summer), de Marc Webb
Esse é mais simpático do que eu imaginava. Lida com um romance destinado ao fracasso sem ser piegas, traz personagens cativantes e uma bem sacada montagem fora da ordem cronológica, porém nunca confusa. O simples fato de ir contra a estupidez reinante nos filmes americanos do gênero já faz com que (500) DIAS COM ELA mereça uma espiada.
1408, de Mikael Håfström
De um lado, uma idéia ótima: a do sujeito cético especializado em desmascarar locais considerados mau-assombrados. De outro, uma draminha banal sobre a perda de um filho e a necessidade de se reconciliar com o passado. 1408 utiliza a trama de mistério (com desenlaces oníricos e surrealistas) como pano de fundo para o tal drama. É aí que o filme perde a oportunidade de ser um thriller de horror dos bons para ser apenas mais um na multidão.