Archive for January, 2010

Um dia perfeito

Sunday, January 31st, 2010

Sábado, 30 de janeiro. Heráclito Maia e Otavio Pereira partem para o centro de Florianópolis. Destino: Cérebro, loja especializada em cultura underground do multi-artista Gurcius Gewdner. Objetivo: encontrar nosso brother Cesar “Sartana” Almeida, que acaba de lançar o livro CEMITÉRIO PERDIDO DOS FILMES B. Após um dia inteiro de muito bate-papo e trocas de idéias sobre cinema, chego em casa e abro o livro para ler. Que leitura saborosa! São 120 filmes dos anos 60 e 70 comentados com paixão e conhecimento de causa. Uma obra mais do que recomendada! No mesmo dia também conheci pessoalmente Ismael “Fly” Schonhorst, colaborador do site Cinema com Rapadura e autor do blog Nem Cult Nem Pop, gente finíssima. Enfim, um dia perfeito. E como diria meu primo Tim Maia, “leiam o livro!”.

Para adquirir CEMITÉRIO PERDIDO DOS FILMES B entrem em contato com o Cesar através do e-mail sartanawest@ig.com.br. E visitem seus blogs B Movie Box Car Blues e Sono da Razão.

Haneke em dose dupla

Monday, January 25th, 2010

Acabo de ver em seqüência VIOLÊNCIA GRATUITA (Funny Games) e CACHÉ. Até então nunca tinha visto nada do Michael Haneke. Por ser um dos caras mais odiados e amados com a mesma intensidade na história recente do cinema, decidi tirar minhas próprias conclusões. E o resultado final é que detestei VIOLÊNCIA GRATUITA e adorei CACHÉ. Ou seja, só fiquei mais confuso em relação ao que pensar do polêmico cineasta austríaco.

VIOLÊNCIA GRATUITA, com aquela artimanha do vilão principal se comunicar conosco, fazendo com que nos tornemos cúmplices de um espetáculo brutal, é de uma maledicência que me desagrada completamente. Agora devo me sentir culpado por me regozijar com a violência de um COMANDO PARA MATAR e por me chocar com os atos de sadismo perpetrados pelo duo de delinquentes? Não, foda-se, são contextos diferentes. Além do mais, o que está em jogo pra mim é a qualidade de um filme, e não a quantidade de sangue que é jorrado na tela.

Porém, mesmo ignorando a parte moral da obra, por mais explícita que ela seja, o que sobra é um trabalho apático, frio, propositadamente desagradável. Afinal a idéia é mostrar que a violência não é algo que deve ser encarada como bonita, ou como um fetiche. Mas pra isso já falei que estou pouco me lixando né? A violência também não é bonita em SOB O DOMÍNIO DO MEDO, no entanto o filme do Peckinpah é tão melhor que é até covardia compará-lo.

Já CACHÉ achei o contrário do VIOLÊNCIA GRATUITA. Talvez a mensagem e o modo de Haneke jogar isso na tela sejam igualmente fascistas, não sei, mas o ponto crucial é que o filme me fisgou. Fiquei hipnotizado e tenso do início ao fim. É claro que o final enigmático decepciona, mas todo o reboliço que as fitas misteriosas causam à vida do casal de protagonistas é acachapante e se tornam muito mais importantes que a não-conclusão lógica. Envolvente, cativante, interessante… São vários os adjetivos que podem ser usados para elogiar CACHÉ. Como já disse o Carlão Reichenbach, que odeia o Haneke, o pior perigo desse cara é que ele é extremamente talentoso.

Bunny Lake Desapareceu

Monday, January 18th, 2010

BUNNY LAKE DESAPARECEU (Bunny Lake is Missing), de Otto Preminger
De acordo com o IMDb, Joe Carnahan comandará um remake desse filme após o reboot do ESQUADRÃO CLASSE A. Tratei de assistir o original logo e achei sensacional. Avô do A TROCA, do tio Clint, Preminger também narra o desaparecimento de uma criança, mas o desenrolar e o desfecho são bem diferentes. Talvez o ponto mais forte de BUNNY LAKE DESAPARECEU seja o questionamento acerca da existência da criança. Ela sumiu ou ela nem existe? A busca por essa resposta, por parte da polícia, e da criança, por parte da mãe e de seu irmão, é tão importante quando a conclusão em si. Num jogo em que não sabemos o que é verdade ou mentira, o filme cria um clima angustiante como poucos thrillers conseguem. A direção é primorosa também na parte técnica, com movimentos de câmera belíssimos e poucos cortes. Sem querer ser chato, mas já sendo, que diabos o Carnahan vai aprontar com esse material? Dá até medo só de pensar.

Alfredo Garcia e mais três

Friday, January 15th, 2010

Mais um episódio pra série “Acredite se Quiser” apresentada pelo Jack Palance: acabei de assistir TRAGAM-ME A CABEÇA DE ALFREDO GARCIA pela primeira vez na vida! Esse é um daqueles que eu prorroguei pra ver pois queria fazer isso nas condições certas, com uma cópia boa, legendada, e num momento em que nada pudesse me atrapalhar. Obviamente a espera valeu a pena! Difícil é escrever algo sobre o filme, primeiro porque não há nada de importante que já não tenha sido dito antes, e segundo porque o maior especialista em Sam Peckinpah que eu conheço chama-se Eduardo Aguilar e qualquer coisa que eu diga aqui ele provavelmente achará uma grande bobagem.

TRAGAM-ME A CABEÇA DE ALFREDO GARCIA não é separado em atos, mas é possível imaginá-lo dessa forma. O primeiro e o último são interligados. Os do meio compreendem a viagem de ida (a busca pela cabeça de Alfredo) e a volta (na qual os perigos da missão triplicam). Todas as tragédias ocorridas nesses dois atos centrais podem ser atribuídas a oferta do El Jefe (Emilio Fernandez) no primeiro ato, que em nenhum momento faz idéia dos ocorridos. Claro que ele lava as mãos, mas o cerne da questão é o efeito cascata. Não há como o responsável passar incólume. É inevitável que a merda respingue, o que culmina no quarto, último e maravilhoso ato, num daqueles finais que só o Bloody Sam poderia nos oferecer.

Outros dois pontos que adorei:
- A relação entre Bennie (Warren Oates) e Elita (Isela Vega), que vai do açucarado ao venéreo, passando pelo estupro consentido a la SOB O DOMÍNIO DO MEDO numa participação especial e intrigante do Kris Kristofferson;
- A tentativa frustrada da família de Alfredo Garcia recuperar sua cabeça e o fogo cruzado entre eles, Bennie e os outros dois bandidos casca-grossas de gostos duvidosos (Robert Webber e Gig Young). Essa sequência inteira é um primor.
Resumindo o papo: obra-prima absoluta, sem mais!

Também assisti esses três:

VÍTIMAS DE UMA PAIXÃO (Sea of Love), de Harold Becker
Foi interessante rever esse filme e descobrir que além de muito bom ele é uma espécie de pai do INSTINTO SELVAGEM. Há uma trama central de mistério, não muito complexa porém funcional, e há os subtextos e pequenos detalhes responsáveis pelo verdadeiro charme da obra. O modo como o personagem do Al Pacino lida com seu passado, com seus colegas, o peso da profissão de policial, seu trabalho conjunto com um parceiro (John Goodman) e sua relação tórrida com a principal suspeita de uma série de crimes (Ellen Barkin) rendem momentos saborosos. Bons tempos em que o Pacino enfileirava filmaços como esse, SERPICO e UM DIA DE CÃO, não por acaso todos produzidos por Martin Bregman. Que bela parceria!

(500) DIAS COM ELA ((500) Days of Summer), de Marc Webb
Esse é mais simpático do que eu imaginava. Lida com um romance destinado ao fracasso sem ser piegas, traz personagens cativantes e uma bem sacada montagem fora da ordem cronológica, porém nunca confusa. O simples fato de ir contra a estupidez reinante nos filmes americanos do gênero já faz com que (500) DIAS COM ELA mereça uma espiada.

1408, de Mikael Håfström
De um lado, uma idéia ótima: a do sujeito cético especializado em desmascarar locais considerados mau-assombrados. De outro, uma draminha banal sobre a perda de um filho e a necessidade de se reconciliar com o passado. 1408 utiliza a trama de mistério (com desenlaces oníricos e surrealistas) como pano de fundo para o tal drama. É aí que o filme perde a oportunidade de ser um thriller de horror dos bons para ser apenas mais um na multidão.

Cine Monstro is back!

Wednesday, January 13th, 2010

Não é a saudosa revista que está de volta, mas o seu criador, a enciclopédia de cinema e de horror Carlos Primati, que finalmente entrou pra blogosfera. A sua Cine Monstro é uma aula a cada post. Ele consegue extrair de cada filme, por mais obscuro que seja, curiosidades e informações relevantes e enriquecedoras, além de um olhar preciso que somente quem domina o assunto tem.

Acessem já: http://cine-monstro.blogspot.com/

Soldado Universal 3 e muito mais!

Sunday, January 10th, 2010

SOLDADO UNIVERSAL 3 - REGENERAÇÃO (Universal Soldier: Regeneration), de John Hyams
Pelo trailer parecia uma bomba, mas até que é razoável. O diretor não inventa moda, a produção é decente e a ação come solta. A pancadaria brutal que rola entre o Van Damme e o Dolph Lundgren vale o filme! Os lutadores de MMA Andrei Arlovski e Mike Pyle também se saem bem. Quem não for muito exigente vai curtir.

JOGADA DE RISCO (Sydney / Hard Eight), de Paul Thomas Anderson
Acreditem se quiser, mas ainda não vi SANGUE NEGRO. Enquanto me preparo para isso, peguei esse filme mais antigo do P.T. pra conferir. Achei excelente, crime/drama de primeira! Philip Baker Hall está ótimo no papel de um velho ex-gangster, é um desses personagens que transmite confiança e experiência em tudo o que faz.

SANTOS JUSTICEIROS (The Boondock Saints), de Troy Duffy
De longe a pior coisa que assisti nesse início de 2010. Troy Duffy conseguiu a proeza de me irritar mais que o Guy Ritchie. Só personagens afetados, um tentando ser mais cool do que o outro, uma coisa horrível. A única vantagem em relação ao Ritchie é que Duffy não apela pra video-clipagem. Mas é um cinema torpe.

TOCAIA (Stakeout), APRENDIZ DE FEITICEIRO (The Hard Way) e JOGOS DE GUERRA (WarGames), de John Badham
Decidi rever alguns filmes do Badham e gostei muito desses três. JOGOS DE GUERRA é o mais fraco, talvez por soar ingênuo demais nos dias de hoje, mesmo assim é um bom entretenimento. Agora TOCAIA e APRENDIZ DE FEITICEIRO me divertiram horrores. Ri demais vendo esses dois. Extremamente prazeirosos.

O MAGNÍFICO (Le Magnifique), de Philippe De Broca
Metalinguístico, mistura a vida simples de um escritor com as aventuras que ele escreve sobre um espião imbatível a la James Bond. Jean-Paul Belmondo interpreta as duas figuras, e com o tempo passa a odiar o personagem (mais ou menos como no IRMA LA DOUCE do Billy Wilder), o que dá ares surreais ao filme com as reviravoltas que ele cria. Divertido.

O AMIGO OCULTO (Hide and Seek), de John Polson
Esse eu vi por indicação do amigo Ailton Monteiro. Pra gostar desse filme é necessário aceitar o seu final. Achei interessante, me fez pensar durante dias. Mas não sei se resiste a uma revisão. De qualquer forma eu recomendo. Gostando ou odiando é uma experiência válida.

SEM SAÍDA (Eden Lake), de James Watkins
Outro filme que me deixou dividido. Gostei de várias coisas, mas fiquei com um pé atrás em relação a sua moral. É uma obra negativa, me fez sentir ódio em alguns momentos. Se esse era o intuito, Watkins está de parabéns. É um thriller/horror que busca o realismo e evita os clichês, mas ao mesmo tempo o vilão adolescente hooligan redneck é bem unidimensional. De 1 a 5 dou 3 estrelas.

Possessão em dose dupla

Tuesday, January 5th, 2010

O EXORCISMO DE EMILY ROSE (The Exorcism of Emily Rose), de Scott Derrickson vs. REQUIEM, de Hans-Christian Schmid

Ambos os filmes são baseados na história real de Anneliese Michel, supostamente possuída por seis demônio diferentes ao mesmo tempo, e que foi submetida ao ritual de exorcismo da Igreja Católica, vindo a falecer aos 23 anos por desnutrição e desitratação (mais informações no Wikipedia). A produção americana trabalha com dois gêneros distintos (o horror e o filme de tribunal), sendo bem sucedido em ambos, enquanto a alemã é apenas um drama banal, que nos poupa das cenas de possessão e consequentemente acaba sem força alguma. O EXORCISMO DE EMILY ROSE é infinitamente superior em todos os aspectos, e deixa a cargo do espectador decidir se a pobre garota sofria de psicose ou se realmente estava possuída pelo tinhoso. Um filme bem melhor do que eu esperava, e tão aterrador quanto a obra-prima O EXORCISTA de William Friedkin.

Vídeo da verdadeira Emily Rose no YouTube:
http://www.youtube.com/watch?v=x4n9vK0_mdk

Últimos filmes assistidos

Sunday, January 3rd, 2010

JUSTIÇA PARA TODOS (…and Justice for All), de Norman Jewison
Mistura perfeita de humor com drama e um retrato incisivo sobre os bastidores corruptos da justiça. Al Pacino arrasa como sempre e o personagem do juiz suicida (Jack Warden) é um grande achado. Belíssimo filme!

O SOBREVIVENTE (Rescue Dawn) + VÍCIO FRENÉTICO (The Bad Lieutenant: Port of Call New Orleans), de Werner Herzog
Quem diria que um dia Herzog iria filmar nos EUA e com liberdade para fazer filmes fodões? Ambos são duas aulas do cinema do mestre alemão. Só fiquei surpreso ao ver que, mesmo sendo barra-pesada, Herzog transformou a obra-prima de Ferrara num filme feliz. Subversão total.

ACCIDENT, de Cheang Pou-Soi
Decepcionei-me com esse filme, que é de uma frieza impressionante. Mas a idéia central, dos assassinatos elaborados meticulosamente para parecerem acidentes, é incrível. Merece uma revisão.

GUERRA AO TERROR (The Hurt Locker), de Kathryn Bigelow
Esse foi um dos filmes mais elogiados de 2009, e pelo jeito fui o único a não embarcar na onda. Há cenas muito boas, mas num todo senti um distanciamento enorme (semelhante ao ACCIDENT). Perfeita a comparação que o Renato Doho fez com a série MÁQUINA MORTÍFERA.

NINJA, de Isaac Florentine
O Ronald Perrone e o Osvaldo Neto já escreveram ótimas resenhas do filme. Só tenho a dizer que concordo com eles sobre NINJA ser diversão garantida para quem curte ação descompromissada e no estilo oitentista.

[REC], de Jaume Balagueró & Paco Plaza + DIÁRIO DOS MORTOS (Diary of the Dead), de George A. Romero
Que dois belos filmes de zumbis! DIÁRIO DOS MORTOS é uma obra irmã de REDACTED, substituindo a Guerra pelos zumbis, mas igualmente rico em metáforas sobre os tempos modernos. [REC] é mais um exercício de horror puro, tenso, claustrofóbico e 100% eficaz. Faz ATIVIDADE PARANORMAL parecer coisa de criança.

A TRILHA (A Perfect Getaway), de David Twohy
Três casais numa ilha. Um deles pode ser uma dupla de assassinos. Enquanto permanece o mistério, A TRILHA é um filme interessante, que prende a atenção. Na medida em que o enigma se desfaz, e ocorre a mudança do suspense para a ação, o que me incomodou não foi a alteração de tom, e sim a resolução da trama. É algo tão besta que faz o filme inteiro parecer uma grande tolice.

O ACOMPANHANTE (The Walker) + A RESSURREIÇÃO DE ADAM (Adam Resurrected), de Paul Schrader
Paul Schrader nunca deixou de ser grande, mas vê-lo na ativa soltando duas pérolas em sequência é sempre bom. Embora as histórias sejam completamente diferentes, há em ambos a questão de seus protagonistas terem contas a acertar com um passado doloroso. Seja na forma de um thriller (O ACOMPANHANTE) ou de um conto bizarro (A RESSURREIÇÃO DE ADAM), as duas obras são dramáticas e emocionantes na medida certa. Merecem constar em qualquer lista de melhores do ano (2007 e 2008 respectivamente).

VALE TUDO (Fighting), de Dito Montiel
Filmes sobre lutas clandestinas não são novidade, mas VALE TUDO faz o feijão com arroz da forma mais saborosa possível. Os combates nem chegam a ser o foco principal, embora eles não decepcionem, mas a atenção dada aos personagens centrais é de um carinho incomum nas obras do gênero. A trilha sonora recheada de música negra da melhor qualidade e a presença da musa Zulay Henao são outros belos atrativos!