Haneke em dose dupla

Acabo de ver em seqüência VIOLÊNCIA GRATUITA (Funny Games) e CACHÉ. Até então nunca tinha visto nada do Michael Haneke. Por ser um dos caras mais odiados e amados com a mesma intensidade na história recente do cinema, decidi tirar minhas próprias conclusões. E o resultado final é que detestei VIOLÊNCIA GRATUITA e adorei CACHÉ. Ou seja, só fiquei mais confuso em relação ao que pensar do polêmico cineasta austríaco.
VIOLÊNCIA GRATUITA, com aquela artimanha do vilão principal se comunicar conosco, fazendo com que nos tornemos cúmplices de um espetáculo brutal, é de uma maledicência que me desagrada completamente. Agora devo me sentir culpado por me regozijar com a violência de um COMANDO PARA MATAR e por me chocar com os atos de sadismo perpetrados pelo duo de delinquentes? Não, foda-se, são contextos diferentes. Além do mais, o que está em jogo pra mim é a qualidade de um filme, e não a quantidade de sangue que é jorrado na tela.
Porém, mesmo ignorando a parte moral da obra, por mais explícita que ela seja, o que sobra é um trabalho apático, frio, propositadamente desagradável. Afinal a idéia é mostrar que a violência não é algo que deve ser encarada como bonita, ou como um fetiche. Mas pra isso já falei que estou pouco me lixando né? A violência também não é bonita em SOB O DOMÍNIO DO MEDO, no entanto o filme do Peckinpah é tão melhor que é até covardia compará-lo.
Já CACHÉ achei o contrário do VIOLÊNCIA GRATUITA. Talvez a mensagem e o modo de Haneke jogar isso na tela sejam igualmente fascistas, não sei, mas o ponto crucial é que o filme me fisgou. Fiquei hipnotizado e tenso do início ao fim. É claro que o final enigmático decepciona, mas todo o reboliço que as fitas misteriosas causam à vida do casal de protagonistas é acachapante e se tornam muito mais importantes que a não-conclusão lógica. Envolvente, cativante, interessante… São vários os adjetivos que podem ser usados para elogiar CACHÉ. Como já disse o Carlão Reichenbach, que odeia o Haneke, o pior perigo desse cara é que ele é extremamente talentoso.
January 25th, 2010 at 10:25 am
Eu sou fanático pelo Haneke, hehe. Quero muito assistir a este último dele, A FITA BRANCA.
Sobre o VIOLENCIA GRATUITA, você pegou no ponto sobre essa abordagem sobre a violência celebrada no cinema. Independente se concorda ou não, se liga ou não, é impossível ficar indiferente. Eu também não ligo, você sabe, mas no contexto em que eu assisti ao filme na época me agradou demais essa opinião moral, porque eu esta avesso justamente aos filmes violentos que atualmente eu venero… coisas de adolescente…
Hoje, ainda serve pra mim como um ótimo exercício, adoro o estilo realista, apático e também as atuações, enfim, ainda considero um grande filme. Nem falo nada de CACHÉ, porque concordo contigo. Filmaço.
Agora falta você ver A PROFESSORA DE PIANO, que é o meu preferido dele, pra confirmar de vez a sua posição perante o cara… hehe.
January 25th, 2010 at 10:40 am
Eu sou um grande adepto da violência. Não a violência da vida real, essa eu abomino. Mas eu gosto de cinema violento, música violenta e esportes violentos. O que seria da arte sem a violência? Nem as Operas italianas existiriam. Então um filme que questiona isso, de uma maneira em que se torna tão negativo quanto a crítica em si, é impossível eu concordar/gostar. E mesmo como exercício, eu achei o suspense nulo, não consegui me envolver com nada. Aquela plano de 10 minutos em que nada acontece (a reação dos pais a morte do filho) é de um tédio descomunal. E depois o pai vai até a cozinha e come um pão. É a típica coisa que eu faria se um ente querido morresse… Realmente não consigo ver qualidades em FUNNY GAMES.
Agora CACHÉ é do caralho, é outro nível de dramaturgia. CACHÉ envolve completamente, não há distância entre o filme e o espectador, parece que estamos dentro da obra, sem que ninguém precise se comunicar conosco. Apenas a imagem se comunica. Isso sim é cinema pra mim.
E sim, preciso ver A PROFESSORA DE PIANO para desempatar, hehe!
January 25th, 2010 at 9:38 pm
também odeio VIOLENCIA GRATUITA, por vários motivos, entre eles o retrato dos psicopatas totalmente mal feito
eu gosto de A PROFESSORA DE PIANO
CÓDIGO DESCONHECIDO não me disse nada
não vi CACHÉ ainda, nem A FITA BRANCA
dizem que os primeiros é que são bons: BENNY’S VIDEO, 71 FRAGMENTE EINER CHRONOLOGIE DES ZUFALLS
January 25th, 2010 at 10:28 pm
Mais um elogiando A PROFESSORA DE PIANO. E esses antigos também já tinha ouvido falar bem. Vou ver se descolo.
January 25th, 2010 at 11:42 pm
Hanekão é dos meus rsrs , ou vc gosta do cara ou vc xinga o cara até perder a voz rsrs.
Violencia é isso mesmo, impossivel não se incomodar… ou vc gosta ou vc detesta e tenho a plena convicção que essa foi a idéia dele. Transformar o filme em algo mais.
Cache é foda , mas Professora é melhor. Professora ele acerta no alvo com uma bala só. Bem no meio “dozóio”.
Pelos teus comentários, não sei o que vai achar de Fita Branca. Vi recentemente e já preparei a resenha dele. Em poucas palavras: é frio, distante, faz pensar, e não te deixa sem ter alguma opinião forte sobre.
Ou seja, mais um Hanekão rsrsrs
January 26th, 2010 at 12:07 am
Vou começar pelo Professora. Fita Branca e Código Desconhecido é capaz de eu não gostar mesmo. Mas vou dar uma chance a todos. Depois eu meto o pau aqui no blog se for o caso, hehehe!
January 26th, 2010 at 4:11 am
“A Professora…” tem pianos muito bonitos e o “Código…” planos muito legais. : P
January 28th, 2010 at 1:27 am
Estou com O TEMPO DO LOBO. Haneke pós-apocalíptico.
January 29th, 2010 at 3:31 pm
Tempo do Lobo também é muito bom!
January 30th, 2010 at 9:08 pm
Corra atrás de A Fita Branca que é excelente. E curiosa a sua opinião sobre os filmes, normalmente ocorre o contrário, adoram Violência Gratuita e acham Caché um saco. Gosto de ambos, apesar de que penso que se revesse o primeiro com a minha cabeça de hoje em dia, acheria pretensioso para pouco conteúdo.
Como prometido, meu blog aqui. Depois diz se achou algo de bom nele, heh. Estou escrevendo também para o Cinema com Rapadura (é só procurar nos arquivos) e n’Os Sujos (http://ossujos.blogspot.com). Este último conto postado no site (A Primeira Visão ao Acordar) é meu. Influência de Raymond Chandler, não sei se curtes.
Acabei vindo te deixar meu blog e cresceu o comentário. Bem atípico, já que apesar de ler milhares de blogs diariamente pelo GReader, nunca comento neles (por este motivo mesmo, leio o feed e como não abre o espaço de comentário acabo nunca comentando, não é antipatia).
Desculpa hoje não ter acompanhado vocês para o programa alcoólico, além de estar cansado aproveitei que tinha que falar uns lances com o Gurcius para voltar mais cedo para casa mesmo. Marcamos outro dia quem sabe, agora que foram feitas as ligações de amigos em comum fica tranquilo disso. Abraços bicho!
January 31st, 2010 at 1:46 pm
Fala Ismael! Muito legal ter te conhecido, e desculpe eu não ter lembrado do seu nome na hora, quando vi agora o FLY me lembrei na hora. Com certeza vou ver A FITA BRANCA sim, depois comento aqui no blog. Uma pena você não ter podido ir com a gente, ficamos até umas 22h falando sobre cinema, hehehe, as mulheres devem ter ficado de saco cheio! Vamos nos falando… Abração!
January 31st, 2010 at 11:16 pm
Acho que quando um cineasta (ou outro tipo de artista) faz tanta questão de estabelecer seu ponto de vista em relação a um tema (neste caso, a violência), é primordial que nós, como espectadores, concordemos ou não com ele, independentemente da qualidade da obra. Aliás, os mais sórdidos sempre são os mais sedutores, então é de se esperar que um crápula seja convincente em seus argumentos. Para mim é isso o Haneke. Como filme, não acho FUNNY GAMES ruim, nem monótono (se o Heráclito não suporta tomadas longas e paradas, ja me preocupo com o filme russo que recomendei a ele…), mas a postura dele é nojenta. Ele cai numa armadilha muito fácil: ele fisga adolescentes pseudo-intelectuais que estão na fase “cinema relevante”, quando no final das contas, para a história do cinema, ele só será julgado por ter feito filmes bons ou ruins. Eu até acredito que o cinema tem a capacidade de transformar, mas o cinema do Haneke não transforma nada. O mundo não é melhor (nem pior) por causa dos filmes dele.
January 31st, 2010 at 11:53 pm
Primati, eu adoro tomadas longas, gosto muito de filmes lentos, introspectivos, contemplativos, etc. Mas não chatos. E aquele plano do Haneke eu achei chato. Apenas isso. Mas de resto concordo com tudo, Haneke não transforma nada, é pura pretensão. Gostei da frase “é de se esperar que um crápula seja convincente em seus argumentos”. É verdade!
February 1st, 2010 at 2:10 am
Não acho o Haneke pretencioso … magina rsrsr, mas discordo quanto a relevancia dele. Acho sim, que ele acretou mais que errou no balanço da carreira. Se visse Violência a uns 6, 7 anos provavelmente ficaria muito impressionado… hoje me impressiono mais com Cache, ou Professora de Piano. E veja quando puder Fita Branca (de novo)
February 1st, 2010 at 4:24 pm
As pessoas de pior índole precisam ser convincentes (vide Hitler), senão nem chegam ao status de “polêmicos”. É como ensinava Hitchcock: um vilão precisa ser charmoso e convincente, caso contrário ele jamais chegaria perto de suas vítimas.
Sobre o comentário do Alexandre, se o filme o impressionava há 6 ou 7 anos e não impressiona mais, isso significa que o filme envelheceu - e mal. Mas o Haneke não; ele está tão convencido de que seu filme (e seu discurso) é perfeito que refez tomada a tomada, corte a corte, frase a frase. E o que a versão nova tem de bom? Naomi Watts de lingerie. Ou seja, tô pouco me lixando para o discurso hipócrita dele.
February 1st, 2010 at 11:55 pm
Carlos, concordo com vc, embora ache que a mensagem dele (hipócrita ou não) continua sendo relevante para o bem ou para o mal ainda hoje. Concordo que o remake foi desnecessário, embora por declarações do próprio, fica claro que a intenção dele foi filmar em inglês para que o público alvo do seu discurso pudesse ser atingido. Já que como meio mundo sabe, americano não lê legenda, embora (e ai vai minha critica mais ácida ao remake) ache que quem vá ver um filme do Haneke não se importa em ler legendas …